começar bem
Leitor, tu és imbecil. Leitor, vai comer no cu. Estas primeiras linhas não assegurariam por si só a imortalidade a uma obra e, pelos vistos, nem uma modesta entrada nos cem mais famosos arranques romanescos que é possível encontrar pela mão do Google. Aí há de tudo e pelas mais diversas razões: pela simplicidade e concisão, pelo achado, pela extensão. Poucas vezes, ao que parece, pela provocação.
Todavia, parece-me fácil bater toda essa gente, pois desconfio que tais listas resultam da selecção, enviesada, de romances já famosos. Ora aqui há batota. Fama atrai fama. Muitos autores medíocres e desconhecidos ficam assim de fora, por serem pouco lidos ou desdenhados. Falo da imensa classe média de escribas que, tal como as pequenas e médias empresas na economia, são o grosso do tecido literário mundial.
Leitor, não chegarei ao fim destas linhas sem mandar bugiar os tipos que impingem listas das primeiras linhas mais sublimes, como impingem citações e o anedotário dos grandes deste mundo. Encosta-se aos balcões das tascas gente mais inspirada que o mainstream dos canais culturais. Esse desafio escatológico, infelizmente, está por lançar, numa ronda pelos bairros, aos militantes da mini e da pevide. Ora diga lá como começava um romance. Algo do género, provavelmente, depois de retocado,
Há também modos famosos de acabar, mas esses não vou agora procurar no Google. Até porque, francamente, meus caros, estou-me nas tintas. Lamento apenas que não tenham sido tuas as últimas palavras, Rhett Butler.
Todavia, parece-me fácil bater toda essa gente, pois desconfio que tais listas resultam da selecção, enviesada, de romances já famosos. Ora aqui há batota. Fama atrai fama. Muitos autores medíocres e desconhecidos ficam assim de fora, por serem pouco lidos ou desdenhados. Falo da imensa classe média de escribas que, tal como as pequenas e médias empresas na economia, são o grosso do tecido literário mundial.
Leitor, não chegarei ao fim destas linhas sem mandar bugiar os tipos que impingem listas das primeiras linhas mais sublimes, como impingem citações e o anedotário dos grandes deste mundo. Encosta-se aos balcões das tascas gente mais inspirada que o mainstream dos canais culturais. Esse desafio escatológico, infelizmente, está por lançar, numa ronda pelos bairros, aos militantes da mini e da pevide. Ora diga lá como começava um romance. Algo do género, provavelmente, depois de retocado,
Só me mexo com o meu marido, dizia a puta imóvel debaixo de mim. Olhei para ela e percebi que não valia a pena protestar. Ainda por cima, já tinha pago e o chulo esperava nas escadas.
Ainda hoje não percebo por que me descuidei tão estrondosamente no elevador apinhado com aquele peido homérico e não argumentativo, dos que fazem rir com gosto a plateia no escuro do cinema. Mas percebi o seu efeito retardado na sorte da entrevista para primeiro emprego, dez minutos mais tarde, precisamente com um dos ocupantes ultrajados e hoje meu assistente de direcção.
De todos os imbecis machos do meu condomínio, gente dos serviços como eu, dos engravatados e grunhos de duvidosa classe média com que me cruzo de manhã e baptizo cerimoniosamente, entre dentes, a partir da taxonomia privada que elaborei cuidadosamente durante anos, de toda essa mole enjipada e enjoada de si própria que joga squash, foi a Cuba e tem casa no Alentejo, enfim, de todos os alfas e betos que coabitam uns escassos milhares de metros cúbicos de betão envolto por jardim, cerca e segurança privada na enésima encosta de Lisboa, coube a este vosso amigo que vos escreve e que vos agradece por ser lido, a mim precisamente, a glória dúbia de se tornar, de uma assentada, overnight, zás, sem espinhas, marido cornudo, pai de lésbicas, irmão de gay, director despedido e proprietário de um bingo clandestino. Ora oiçam a minha história.
Há também modos famosos de acabar, mas esses não vou agora procurar no Google. Até porque, francamente, meus caros, estou-me nas tintas. Lamento apenas que não tenham sido tuas as últimas palavras, Rhett Butler.

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