À sombra da bandeira I

Acordou sobressaltado, após um sonho povoado de bandeiras desfraldadas ao vento.
Na casa de banho, ainda ensonado, olhou-se ao espelho e quase gritou de horror. A sua cara mudara completamente durante a noite: a metade esquerda estava tingida de vermelho, a outra metade do verde complementar. Rigorosamente dividida, sem qualquer degradé. Recuou, com o coração aos pulos, as mãos em máscara sobre o rosto. Permaneceu estático durante alguns segundos, de olhos esbugalhados a espreitar entre os dedos. Então avançou para o lavatório e abriu a torneira. Escrutinou meticulosamente a pele, poro a poro. Depois lançou-lhe chapadas de água e esfregou, ora de um lado ora do outro, com as unhas e a escova. Nada. Nem sinais de tinta ou de qualquer maquilhagem. A pigmentação era real e definitiva.
Passou à sala e sentou-se no sofá, a digerir a situação. Com um pressentimento, ligou a televisão. Pois bem, ali estava a confirmação: em todos os canais que percorreu, locutores, animadores, entrevistados e transeuntes, políticos, artistas e comentadores, personalidades e cidadãos anónimos – todos sem excepção, mesmo os animais - mostravam quão drástica fora a transformação. Da noite para o dia, sem qualquer aviso ou explicação. Eram agora bicolores, o verde e o vermelho estampados nos rostos (apenas nos rostos, felizmente).
Mas ninguém, estranhamente, pelo menos na televisão, parecia preocupar-se com o assunto. Acontecera, pura e simplesmente, como a chuva ou os engarrafamentos. Pele óbvia e quotidiana como a anterior. Só ele se dava conta da metamorfose, ainda preso na memória de um rosto que fora pálido e triste, quase anémico.
Espreitou pela janela e viu pessoas na paragem do autocarro. À distância, era visível a mudança. Ninguém escapara. Olhou o céu, ainda azul - o céu deles, caramba, o tão celebrado azul português – e estremeceu. Algo lhe dizia que o processo ainda não terminara. Suspirando, voltou a meter-se na cama e ligou o rádio (o som, ao menos, não tem cor). Puxou o lençol para cima e sorriu. Talvez fosse um sonho, apenas um sonho, de que era preciso acordar. Fechou os olhos e sorriu. Era isso mesmo, apenas um sonho.
Virou-se na cama, de costas para o rádio, no preciso momento em que o mostrador amarelo-manga desmaiado começou a piscar, tornando-se mais luminoso. Gradualmente, duas cores ganharam vida e horizontalmente o cindiram: superior, o FM desviou-se para o vermelho; por baixo, o AM para o verde complementar.

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